A cada troca de fraldas, a babá notava hematomas incomuns.

Elena congelou, percebendo o que tinha feito: batera a cabeça da criança contra a porta aberta do armário.

Emily correu para ajudar, mas Elena, tomada pelo pânico, empurrou-a com força.

“Foi você!” gritou. “Você não estava olhando para ele!”

Emily olhou para ela incrédula.

“Não, Sra. Torres, eu estava no chão com os brinquedos dele. Não fui eu.”

Mas a culpa transformou-se em fúria, e a fúria em acusação.

Quando Ricardo apareceu, Elena já tinha sua história pronta:

“A culpa foi da Emily! Eu não estava prestando atenção.”

Emily tentou se defender, com a voz embargada pela impotência.

“Sr. Torres, eu juro… eu jamais machucaria o Lucas.”

Ricardo suspirou.

“Você se comportou bem, Emily, mas não podemos correr riscos. É melhor você ficar aqui.”

As palavras a atingiram como facas. Elena, sem olhar para ela, murmurou:

“Arruma as malas. Acabou.”

Com a visão embaçada pelas lágrimas, Emily juntou seus poucos pertences.

Antes de sair, disse baixinho:

“Um dia eles vão entender que eu jamais machucaria o Lucas. Ele era tudo para mim.”

A porta bateu com força, e o eco pairou no ar como uma despedida.

Ela conseguiu um emprego com outra família, os Gustavos.

Pensou que as coisas melhorariam. Não melhoraram.

O Sr. Gustavo exigia que ela limpasse a casa inteira, além de cuidar da criança, e seu quarto não passava de um armário úmido.

Quando ela protestou, ele sorriu cruelmente.

“Se não gosta, vá embora. Ninguém mais vai te contratar.”

Naquela noite, deitada no chão frio, Emily fez uma promessa a si mesma:

“Eu mereço algo melhor.”

Na manhã seguinte, pediu demissão.

Seu próximo emprego parecia diferente.

Uma viúva chamada Camila Montero procurava uma babá para sua filha, Judi.

Camila a recebeu calorosamente. A casa cheirava a flores e nostalgia.

Por alguns dias, Emily pensou ter encontrado seu lugar no mundo.

Mas algo estava errado: ela não conseguia ver a menina.

Quando Camila finalmente a apresentou a “Judi”, Emily congelou.

No colo da mulher, havia uma boneca de pano, vestida de rosa, com uma fita no cabelo.

“Esta é Judi”, disse Camila gentilmente, acariciando os fios da cabeça da boneca.

Emily sorriu sem jeito.

Os dias seguintes foram um pesadelo silencioso.

Camila alimentava a boneca, conversava com ela, a repreendia. Pedia a Emily que lhe lesse histórias antes de dormir.

Um dia, Emily encontrou um álbum de fotos escondido. Nas fotos, havia uma menininha sorridente de verdade, com cerca de seis anos.

Então, de repente, as imagens pararam.

O silêncio daquelas páginas dizia tudo.

Quando Camila descobriu que Emily tinha visto o álbum, ficou apavorada.

“Nem pense em levá-la! Judi é tudo o que eu tenho!”

Emily entendeu: a mulher não era má, apenas estava fragilizada.

Com compaixão, ela chamou as autoridades.

Camila foi hospitalizada para tratamento.

Emily saiu daquela casa com o coração despedaçado, assombrada pela imagem de uma mãe abraçando uma filha que já não estava mais lá.