Aquelas palavras me atingiram com mais força do que o peso dos anos.

Sussurrei no quarto vazio: “Se eles querem as chaves, terão que cumprir minha condição.”

Três dias depois, ouvi o barulho de pneus na brita. Através das persianas, vi o carro de Ethan. Mônica estava sentada no banco do passageiro, os óculos empoleirados na cabeça, o rosto contorcido num sorriso desdenhoso. Eles não bateram. Entraram como se a casa já fosse deles.

Abri a porta antes mesmo de tocarem a campainha. “O que vocês estão fazendo aqui?”, perguntei em tom monótono.

Ethan esboçou um leve sorriso. “Pensamos que poderíamos adiantar as coisas, mãe. Sabe, pegar algumas coisinhas.”

Mônica roçou meu ombro e entrou, o olhar percorrendo os lustres, o mármore, os retratos.

“Espaçosa”, murmurou. “Perfeita para receber visitas.”

“Esta é a minha casa”, eu disse, cerrando os punhos.

Ela se virou, um sorriso zombeteiro brincando em seus olhos. “Não por muito tempo. As chaves, por favor.”

As palavras ecoaram nos meus ouvidos. Senti a ausência de Harold, mas também ouvi sua voz: Não ceda. Endireitei-me.

“Só atendemos VIPs”, disparei. “Lembra?”

O sorriso dela sumiu por um instante.

Ethan ergueu as mãos. “Mãe, vamos parar com isso. A Monica não queria…”

“Ela queria sim”, interrompi. “E você acha que pode simplesmente entrar aqui como se fosse dona do lugar? Hoje não.”

Monica cruzou os braços. “Ethan é seu filho. Esta casa é o legado dele. Por que adiar o inevitável?” “A herança vem depois da morte”, respondi. “Até onde eu sei, ainda estou viva.”

O silêncio tornou-se sufocante.

“Se você quiser entrar aqui, há uma condição”, continuei.

Monica inclinou a cabeça sarcasticamente. “E laquê.”

A atmosfera mudou. Os olhos de Monica brilharam. Ethan enrijeceu.

“Ridículo”, sibilou Monica. “Não se impõem condições à família.”

“Acabei de impor.”

Ethan quase gemeu. “Mãe, por que você é tão cruel?”

“Cruel? Cruel é excluir sua mãe do seu casamento e exigir as chaves da casa dela como se ela já estivesse morta. Cruel é pegar tudo e chamar isso de amor.”

Pela primeira vez, a vergonha cruzou o rosto de Ethan. Monica, por outro lado, ficou ainda mais hostil.

“Você vai se arrepender disso”, sussurrou ela. “Quando estiver velho e sozinho, vai desejar ter sido mais gentil.”

“Prefiro ficar sozinha a ser usada. Lembre-se disso.”

Eles congelaram. Então Monica se virou bruscamente e bateu a porta. Ethan a seguiu.

Encostei-me na porta fechada, sem fôlego, mas orgulhosa. Pela primeira vez em décadas, não peguei no talão de cheques. Tracei uma linha. “A máquina está quebrada”, sussurrei.