Ele queria dormir sozinho, não porque estivesse me traindo, mas porque precisava, em silêncio, “retornar” àquelas lembranças, àquele primeiro amor que jamais esquecera.
Desabei no chão, com lágrimas escorrendo pelo rosto. A raiva se dissipou, restando apenas uma dor amarga misturada com compaixão: o tempo todo, não era que ele estivesse me traindo, mas sim que eu vivia com um coração que nunca me pertenceu de verdade.
Sentei-me no chão frio, meus dedos trêmulos ainda agarrados à borda do buraco. A imagem do meu marido ajoelhado diante do retrato de sua falecida esposa me dilacerou a alma. Eu temia outra mulher viva, uma traição, mas descobri que estava competindo com uma sombra do passado.
Eu pensava que, se meu amor fosse sincero e meu cuidado constante, um dia ele me amaria novamente. Mas agora eu entendia que algumas feridas e amores são impossíveis de substituir. Eu era apenas uma hóspede temporária em uma casa cujo coração estava para sempre selado no passado.
Naquela noite, voltei para o meu quarto, enterrei o rosto no travesseiro e chorei até não ter mais lágrimas. Eu não estava mais com raiva dele; eu só lamentava por mim mesma: uma mulher que entregou sua juventude a um coração que nunca teve espaço para ela.
Nos dias seguintes, continuei cumprindo minhas obrigações: cozinhar, lavar, limpar. Mas já não esperava abraços nem palavras de carinho. Simplesmente vivia em silêncio, observando, preparando minha decisão.
Uma manhã, coloquei os papéis do divórcio sobre a mesa onde ele tomava café. Quando os pegou, olhou para mim surpreso. Sorri, fraca, mas resoluta:
“Querido, agora eu entendo… Não devo tentar me agarrar a um coração que nunca me pertenceu. Estou indo embora, para que você possa viver no seu próprio mundo, sem amarras.”
Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, a mão tremendo e os olhos vermelhos. Mas, no fim, não disse nada para me impedir.
No dia em que saí daquela casa, carregava uma bagagem leve, mas um coração pesado. Pesado de amor, de tristeza, de saudade… e, ao mesmo tempo, mais livre, porque sabia que tinha tomado a decisão certa: libertar nós dois.
Nesse novo caminho, prometi a mim mesma viver de forma diferente. Uma vida onde meu coração não precisaria se esconder atrás de nenhuma sombra. Eu aprenderia a me amar e a esperar — se a hora chegasse — pelo amor verdadeiro, um amor só meu, sem compartilhá-lo com memórias ou fantasmas.
E desta vez… eu jurei que nunca mais me perderia.
