“Amara…” Sua voz era quase um sussurro.
Ela respirou fundo, mantendo a calma.
“Marcus.” Não pensei que o encontraria aqui.
Ele olhou para as três crianças e depois para ela.
“Eles são meus, não são?”
Amara apertou os lábios, lançando um olhar de soslaio para as crianças, que agora observavam a cena com olhos arregalados e curiosos. Finalmente, assentiu.
“Sim… São seus.”
Marcus sentiu um nó na garganta. A mistura de raiva, culpa e uma ternura desconhecida o desarmou.
“Por que você não me contou?”
Ela engoliu em seco.
“Porque o homem que você era… não estava pronto para ser pai. Seu coração estava trancado atrás de muros de ouro. Eu… eu não queria que eles crescessem naquela gaiola.”
Marcus estava prestes a responder, mas uma voz grave o interrompeu.
“Está tudo bem aqui, meu amor?”
Um homem alto de terno cinza aproximou-se da mesa e passou um braço protetor em volta da cintura de Amara. Sua pele era tão escura quanto a dela, mas seus olhos eram de um azul cristalino.
“Marcus…” disse Amara, com um tom quase suplicante, “este é David… meu marido.” David estendeu a mão com uma cordialidade calculada.
“Ouvi falar muito sobre você.”
Marcus mal conseguia falar enquanto apertava aquela mão. Um detalhe lhe chamou a atenção de repente: no pulso de David, havia uma pequena pulseira do hospital com três nomes gravados… os mesmos três nomes que Amara havia mencionado ao apresentar as crianças.
Só havia um motivo para um homem ainda carregar aquele fardo, depois de todos esses anos. Marcus entendeu em um instante, e a verdade o deixou sem fôlego: David estivera lá no dia em que nasceram. Foi ele quem os segurou primeiro, quem cortou os cordões umbilicais.
Marcus olhou para Amara uma última vez, compreendendo que, embora o sangue fosse seu… os corações daquelas crianças pertenciam a outro.
Ela encontrou seu olhar com uma mistura de compaixão e firmeza.
“Eles não precisam de um milionário, Marcus. Precisam de um pai. E eles já têm um.”
Marcus assentiu lentamente, sentindo algo dentro de si se romper… e se libertar ao mesmo tempo.
Ao se virar para ir embora, o riso dos trigêmeos o assombrou como um eco doce e cruel.
Na calçada, sob a chuva, Marcus compreendeu a ironia: passara a vida inteira acumulando bens… e a única coisa que realmente lhe pertencia, perdera para sempre.
