Meu marido me ordenou que saísse de casa com nosso filho por quatro meses para que a mãe dele pudesse nos visitar, mas ele não esperava a mala que eu havia preparado para ele.

Meu marido me ordenou que saísse de casa com nosso filho por quatro meses para que a mãe dele pudesse nos visitar, mas ele não esperava a mala que eu havia preparado para ele.

Lídia estava guardando as roupas limpas do filho na cômoda quando a porta da frente bateu com força incomum. O pequeno Máximo, de cinco anos, já dormia em sua cama, e ela tentou não fazer barulho para não acordá-lo. A tarde de outubro lá fora estava silenciosa; apenas ocasionalmente as folhas secas farfalhavam sob os pés dos poucos transeuntes.

O marido entrou no corredor sem sequer dizer olá. David tirou os sapatos e pendurou o casaco no cabide com um movimento brusco. Pela expressão tensa, Lídia percebeu que ele não tinha tido um bom dia.

“Aconteceu alguma coisa no trabalho?”, perguntou ela, indo ao seu encontro.

David foi até a cozinha, ligou a chaleira e só então se virou para a esposa.

“Mamãe vem passar o verão inteiro aqui”, disparou ele, sem nem olhar para Lídia.

A mulher parou no meio do corredor. O verão havia terminado há mais de um mês; lá fora, era outubro.

“Que verão?”, perguntou Lídia, tentando esclarecer. “É outono.”

“No próximo verão”, explicou David. “Dona Teresa já comprou as passagens. Ela chega em maio e fica conosco até setembro.”

Lídia caminhou lentamente até a cozinha e sentou-se em uma cadeira em frente ao marido.

“Quatro meses?”, repetiu, tentando assimilar a informação.

“Sim. E mais uma coisa.” David serviu-se de água filtrada e bebeu um gole. “Teresa não te suporta. Então pegue suas coisas, pegue nosso filho e vá embora. Enquanto minha mãe estiver aqui, vocês dois não podem ficar.”

Lídia congelou, piscando, sem saber como reagir. As palavras do marido eram tão absurdas que ela se perguntou se ele estava brincando.

“Você está falando sério?”, perguntou em voz baixa.

“Absolutamente”, respondeu o marido. “Minha mãe não quer morar sob o mesmo teto que você. E eu não posso negar isso à minha própria mãe.”

Um silêncio pesado se instalou na cozinha. Apenas o zumbido da geladeira e o som distante dos carros na rua podiam ser ouvidos. Do quarto das crianças vinha a respiração rítmica de Máximo, que dormia. Lídia inclinou a cabeça para o lado, tentando processar o que acabara de ouvir. O sangue subiu lentamente ao seu rosto, denunciando sua crescente indignação.

“Esta é a minha casa, não uma pensão para a sua mãe”, disse Lídia com uma calma gélida.

David colocou o copo sobre a mesa e, pela primeira vez em toda a conversa, olhou a esposa nos olhos.

“Teresa é minha mãe. Tenho a obrigação de garantir que ela viva confortavelmente.”

“Ao custo de expulsar sua esposa e seu filho?”, esclareceu Lídia, com a voz cortante como gelo.

“Você vai encontrar um lugar para ficar. Na casa dos seus pais, por exemplo.”

Lídia levantou-se da cadeira e foi até a janela. Os postes de luz estavam acendendo, iluminando o pátio deserto. Ela se lembrou de como, oito anos atrás, comprara aquele apartamento de dois quartos com suas próprias economias, fruto de anos de trabalho e sacrifício. David, naquela época, trabalhava como estagiário em uma pequena empresa e não tinha dinheiro para moradia.

“O apartamento é meu”, lembrou-lhe ela. “E eu decido quem mora aqui.”

David levantou-se da mesa, claramente se preparando para uma discussão.

“Você está se esquecendo da autoridade parental”, começou ele, embora não houvesse confiança em sua voz. “Teresa é mais velha, mais sábia. Ela tem o direito…”

“Direito a quê?”, interrompeu Lídia. “De despejar a dona da própria casa?”

“Ela não está te despejando. Ela só está pedindo que você desocupe o espaço temporariamente.”

Lídia se virou para o marido. David evitou seu olhar, estudando o padrão dos azulejos da cozinha.

“E, segundo Teresa, onde o neto e a nora vão morar durante esses quatro meses?”

“Bem… na casa dos seus pais. Ou vocês podem alugar alguma coisa.”

“Com o meu dinheiro?”

“Com o nosso dinheiro”, corrigiu-se David.

“Com o meu dinheiro”, repetiu Lidia com firmeza. “Porque o seu salário mal dá para comprar comida.”

O marido ficou em silêncio, irritado, percebendo que discutir mais era inútil. Lidia, de fato, ganhava três vezes mais que ele e sustentava a família quase que completamente.

“Teresa já comprou as passagens”, tentou David pressioná-la. “Não podem ser canceladas.”

“Deixe-a ir.” “Ela simplesmente ficará em um hotel”, respondeu Lidia.

“Com que dinheiro? A aposentadoria da Teresa é pequena.”

“Esse não é o meu problema.”

David andava de um lado para o outro na cozinha, da geladeira à janela e vice-versa. Estava claramente nervoso, mas não ousava pressionar mais a esposa.

“Lidia, seja razoável. Ela é minha mãe.”

“E Máximo é seu filho. E eu sou sua esposa. Aliás.”

“Mas Teresa está sozinha, doente…”

“Doente de quê?” perguntou Lidia, interessada.

David hesitou.

“Bem… da idade. Setenta.”

“Uma idade perfeita para viajar e ficar em hotéis”, comentou Lidia sarcasticamente.

Um leve gemido veio do quarto das crianças. Máximo havia acordado, como vinha acontecendo com frequência ultimamente. Lídia foi ver como estava o filho, deixando o marido sozinho com seus pensamentos na cozinha.